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SANTISSIMUS
O PAPA - SERVO DE UMA IGREJA
COM MAIS DE 2000 ANOS
Os
Santos Padres gostavam de comparar a Igreja
à lua, pois assim como a lua recebe toda
a sua luz do sol, assim também a Igreja
recebe toda a sua luz de Cristo[1]. Meditar
sobre o Mistério da Igreja é também
meditar sobre o que somos enquanto cristãos,
somos Igreja. O
sol que ilumina a Igreja, Cristo, é também
quem mantém a sua jovialidade. A Igreja
não envelhece, ela passa por fases que
a levam ao amadurecimento no curso da história.
Contudo, a vitalidade essencial que lhe vem
do Pai em Cristo pelo Espírito Santo
é sempre a mesma, a de Deus enquanto
participada por essa criatura sua, a Igreja,
que acolhe no seu seio a nova criação,
a humanidade redimida no sangue do Cordeiro
que tira o pecado do mundo.
1
- O Mistério da Igreja: sua origem, fundação
e missão
“Para
perscrutar o mistério da Igreja, convém
meditar primeiro sobre sua origem no desígnio
da Santíssima Trindade e sobre sua realização
progressiva no curso da história”[2].
Podemos
pensar no mistério da Igreja, isto é,
considerando-a, ela mesma, como um mistério;
também podemos falar da Igreja do mistério,
enquanto que ela é depositária
do Mistério de Cristo. A Igreja na terra
é - como diz o Concílio Vaticano
II[3] - como um sacramento, ou seja, sinal vísivel
de uma realidade invisível. A Igreja,
Mistério de comunhão entre Deus
e os homens, e destes entre si e com Deus, é
sacramentum communionis, sacramento da comunhão:
ela visibiliza o mistério de união
com Deus e com os demais.
O
Catecismo da Igreja Católica fala da
Igreja como um projeto nascido no coração
do Pai, prefigurada desde a origem do mundo,
preparada na Antiga Aliança, instituída
por Jesus Cristo, manifestada pelo Espírito
Santo e consumada na glória[4]. Diz ainda:
“A Igreja está na história,
mas ao mesmo tempo a transcende. É unicamente
“com os olhos da fé” que
se pode enxergar em sua realidade visível,
ao mesmo tempo, uma realidade espiritual, portadora
de vida divina”[5].
Ela
é um mistério revelado paulatinamente
até que chegasse a plenitude dos tempos
(Cfr. Gal 4,4) e Jesus Cristo - que é
a plenitude e o mediador da Revelação
- a fundasse. Em primeiro lugar: como a Igreja
é um projeto nascido no coração
do Pai, e como o Pai é eterno, podemos
dizer que a Igreja existe desde toda a eternidade
no coração de Deus.
Como
foi dito anteriormente, a Igreja é mistério
de comunhão dos homens com o Pai no Filho
pelo Espírito Santo. Esse elemento é
central para compreender a Igreja: Comunhão.
Deus chama toda a humanidade para viver em comunhão
com ele, de tal maneira que podemos dizer que
a Igreja é a humanidade redimida e em
comunhão com a Trindade beatíssima.
Deus chama à comunhão. “A
palavra “Igreja” ["ekklésia",
do grego "ekkaléin" - "chamar
fora"] significa “convocação”.
Designa assembléia do povo, geralmente
de caráter religioso. É o termo
usado freqüentemente no Antigo Testamento
grego para a assembléia do povo eleito
diante de Deus, sobretudo para a assembléia
do Sinai, onde Israel recebeu a Lei e foi constituído
por Deus seu povo santo… O termo “Kyriakä”,
do qual deriva “Chruch”, “Kirche”,
significa “a que pertence ao Senhor”…
“A Igreja” é o povo que Deus
reúne no mundo inteiro. Existe nas comunidades
locais e se realiza como assembléia litúrgica
sobretudo eucarística. Ela vive da Palavra
e do Corpo de Cristo e se torna assim, Corpo
de Cristo”[6].
O
amor da Trindade pela humanidade fez com que
a Igreja fosse prefigurada na arca de Noé,
na assembléia de Israel, no templo de
Jerusalém etc. Deus criou o ser humano
para fazê-lo participante de sua vida
divina, não existe um só ser humano
que não tenha esse fim sobrenatural.
E o meio através do qual esse fim sobrenatural
se realiza é a Igreja. Ao mesmo tempo
que a Igreja é o meio pelo qual se realiza
essa comunhão com Deus, ela também
é - com relação ao mundo
- a finalidade de todas as coisas[7].
Quando
o homem e a mulher pecaram, o Senhor prometeu
a salvação (Cfr. Gn 3,15). A partir
daí começou o tempo de preparação
da Igreja. Alguns Santos Padres falaram até
da Ecclesia ab Adamo, a Igreja desde os tempos
de Adão, e da Ecclesia ab Abel, a Igreja
desde os tempos de Abel. “A preparação
longínqua do Povo de Deus começa
com a vocação de Abraão,
a quem Deus promete que será o pai de
um grande povo. A preparação imediata
tem seus inícios com a eleição
de Israel como povo de Deus”[8].
Quando
chegou o momento Cristo instituiu a sua Igreja:
“o Senhor Jesus dotou sua comunidade de
uma estrutura que permanecerá até
a plena consumação do Reino. Há
antes de tudo a escolha dos Doze, com Pedro
como seu chefe. Representando as doze tribos
de Israel, eles serão a pedra de fundação
da nova Jerusalém. Os Doze e os outros
discípulos participam da missão
de Cristo, de seu poder, mas também de
sua sorte. Por meio de todos esses atos, Cristo
prepara e constrói a sua Igreja.
“Mas
a Igreja nasceu primeiramente do dom total de
Cristo para nossa salvação, antecipado
na instituição da Eucaristia e
realizado na Cruz. “O começo e
o crescimento da Igreja são significados
pelo sangue e pela água que saíram
do lado aberto de Jesus crucificado.”
“Pois do lado de Cristo dormindo na Cruz
é que nasceu o admirável sacramento
de toda a Igreja”. Da mesma forma que
Eva foi formada do lado de Adão adormecido,
assim a Igreja nasceu do coração
traspassado de Cristo morto na Cruz”[9].
Podemos
observar que o Catecismo não utiliza
apenas uma passagem para explicar-nos a fundação
da Igreja, como a conhecida “tu és
Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja,
e as portas do inferno não prevalecerão
contra ela” (Mt 16,18). É verdade
que essa passagem continua mantendo toda a sua
importância nesse contexto, pois trata-se
de uma promessa do Senhor, já realizada,
pois a Igreja foi fundada. O Catecismo da Igreja
fala de “atos fundacionais de Cristo”:
a reunião de discípulos, a escolha
dos Doze, a primazia de Pedro no grupo dos Doze,
a instituição da Eucaristia, o
Mistério Pascal. Como tudo o que Deus
faz ad extram, ou seja, o que acontece fora
da vida íntima de Deus, são ações
comuns às três divinas Pessoas
da Trindade, entenderemos também a função
importantíssima do Espírito Santo,
que é Espírito do Pai e do Filho,
em Pentecostes e nos primeiros anos da Igreja
neste processo fundacional. O Espírito
Santo pode ser chamado co-fundador da Igreja
com Cristo. A Igreja é fruto da missão
conjunta do Filho e do Espírito Santo,
enviados pelo Pai.
A
Igreja foi manifestada pelo Espírito
Santo. “Terminada a obra que o Pai havia
confiado ao Filho para realizar na terra, foi
enviado o Espírito Santo para santificar
a Igreja permanentemente”[10]. Esta Igreja
também será consumada na glória
quando Cristo volte em sua glória[11].
Então a Igreja estará para sempre
resplandecente de santidade.
A
missão da Igreja é a mesma de
Cristo: a salvação da humanidade.
Ela continua a missão de Jesus Cristo.
“Por ser “convocação”
de todos os homens para a salvação,
a Igreja é, por sua própria natureza,
missionária enviada por Cristo a todos
os povos para fazer deles discípulos”[12].
O Cristo glorificado que recebeu do Pai toda
autoridade, todo poder, faz com que sua Esposa
participe desta mesma autoridade, deste mesmo
poder: a missão de Cristo sacerdote,
profeta e rei faz-se presente por participação
na missão da Igreja, Povo sacerdotal,
profético e régio.
a)
A Igreja de Cristo é una e única
É
una por sua Fonte, a Trindade Beatíssima,
um só Deus em três Pessoas; por
seu Fundador, Jesus Cristo; por sua Alma, o
Espírito Santo[17]. Alguém poderia
perguntar: se a Igreja é una com uma
indivisibilidade tão fundada, como explicar
a diversidade que há nela? A resposta
pode dar-se na mesma linha do que antes foi
dito: Deus é um, mas também é
trino; a Igreja é una, mas também
guarda em si a diversidade. Esta variedade de
povos, culturas, espiritualidade, ritos, não
impedem a unidade da Igreja. Ela desprende todo
o vigor de sua unidade em meio de tão
rica variedade.
Em
concreto, para verificar o grau de unidade que
alguém tem com a Igreja de Cristo é
importante fixar-se nos vínculos de unidade.
Logicamente, o vínculo dito “invisível”
não é verificável pois
se trata da graça de Deus, que faz com
que haja “a caridade, que é o vínculo
da perfeição” (Cl 3,14).
Além do vínculo invisível,
existem os vínculos visíveis,
que sim são verificáveis: a profissão
de uma única fé recebida dos apóstolos,
a celebração dos Sacramentos,
a sucessão apostólica (através
do Sacramento da Ordem, que mantém a
concórdia na Família de Deus que
é a Igreja). Classicamente, isso tem
sido expressado assim: comunhão na Fé,
nos Sacramentos e no Regime[18].
Em
sentido estrito, para que alguém esteja
em plena comunhão com a Igreja são
necessários todos os vínculos,
sem excluir a graça de Deus. Não
será dificil concluir, a partir da consideração
anterior que nós, os que estamos em plena
comunhão com a Igreja Católica
mediante os vínculos externos ou visíveis,
podemos não estar em plena comunhão
se consideramos o estado de graça. É
doutrina católica que não é
possível saber com certeza de fé
se estamos ou não na graça de
Deus. Consequência: nunca presumir! É
verdade que sempre podemos, supostos os meios
sobrenaturais adequados, confiar que estamos
em graça; no entanto, sempre com o santo
temor de Deus e a consciência de que quem
nos salva é o Serhor. Somos a comunidade
dos salvados em busca da salvação!
Talvez alguém se assustaria com a afirmação
tão clara que os filhos da Igreja ousam
dizer nos tempos atuais: a Igreja de Cristo
é a Igreja Católica. Contudo,
isso é verdade: a Igreja que Jesus Cristo
quis e fundou é a Igreja Católica,
a única Igreja de Cristo, entregue a
Pedro e aos demais Apóstolos. “Esta
Igreja, constituída e organizada neste
mundo como uma sociedade, subsiste na (”subsistit
in“) Igreja Católica governada
pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão
com ele”[19].
O
que fazer então com o ecumenismo? Será
o que antes se afirmou não desmorona
essa tentativa de unidade? Não. O ecumenismo
não pode ser confundido com o “falso
irenismo”, com meias verdades, com maneiras
suaves fundadas na ignorância. Com o movimento
ecumênico, a Igreja tem procurado fazer
realidade o desejo de Cristo de que todos sejam
um (Cfr. Jo 17,21), e fá-lo na verdade
e na caridade. Apesar de ser um trabalho difícil,
o ecumenismo precisa ir adiante. O primeiro
gesto ecumênico a ser feito, porém,
é o da oração; precisamos
rezar muitas vezes a oração que
Cristo rezou: “que todos sejam um”.
No Concilio Vaticano II, “por «movimento
ecuménico» entendem-se as actividades
e iniciativas, que são suscitadas e ordenadas,
segundo as várias necessidades da Igreja
e oportunidades dos tempos, no sentido de favorecer
a unidade dos cristãos.
Tais são: primeiro, todos os esforços
para eliminar palavras, juízos e ações
que, segundo a equidade e a verdade, não
correspondem à condição
dos irmãos separados e, por isso, tornam
mais difíceis as relações
com eles; depois, o «diálogo»
estabelecido entre peritos competentes, em reuniões
de cristãos das diversas Igrejas em Comunidades,
organizadas em espírito religioso, em
que cada qual explica mais profundamente a doutrina
da sua Comunhão e apresenta com clareza
as suas características. Com este diálogo,
todos adquirem um conhecimento mais verdadeiro
e um apreço mais justo da doutrina e
da vida de cada Comunhão. Então
estas Comunhões conseguem também
uma mais ampla colaboração em
certas obrigações que a consciência
cristã exige em vista do bem comum. E
onde for possível, reúnem-se em
oração unânime. Enfim, todos
examinam a sua fidelidade à vontade de
Cristo acerca da Igreja e, na medida da necessidade,
levam vigorosamente por diante o trabalho de
renovação e de reforma”[20].
Uma observação que vale a pena
fazer neste momento é que a conversão
das pessoas à uma determinada Igreja
ou Comunidade Eclesial não vai em contra
do ecumenismo. Caso um irmão de uma confissão
evangélica queira alcançar a plena
comunhão com a Igreja Católica
será sempre bem recebido e nós,
os católicos, devemos alegrar-nos imensamente
de que essa pessoa alcance a plenitude dos meios
para a sua salvação.
Para
que fique mais claro: uma pessoa chega a pertencer
a Igreja de Cristo pelo batismo. Qualquer batizado
pertence à Igreja de Cristo, que subsiste
na Igreja Católica. Isso quer dizer,
a efeitos práticos, que um cristão
de uma comunidade eclesial evangélica
pertence à Igreja de Cristo, mas não
pertence a ela totalmente; de fato, quanto esse
cristão vem à Igreja Católica
fala-se que ele alcançou a plena comunhão
com a Igreja. Com outras palavras, antes de
ser católico ele pertencia à Igreja
de Cristo, mas só parcialmente; depois
de vir à Igreja Católica ele alcançou
a comunhão plena com essa Igreja.
b)
A Igreja é Santa
Esse
é um artigo do Credo que talvez, inclusive
para muitos cristãos, resulte um pouco
difícil de aceitar. O problema é
que ao ver a vida de alguns discípulos
de Cristo, inclusive de membros da hierarquia,
muitas pessoas se assustam. No entanto, é
preciso dizer, não deveriam assustar-se:
a Igreja está composta de seres humanos,
e como tais, falíveis. Quando uma pessoa
olha para si mesmo e vê a capacidade que
tem para cometer os piores pecados já
cometidas por outros, não se assustará
mais; ao contrário, pedirá a misericórdia
de Deus e para si, para seus irmãos e
para toda a humanidade. O artigo da fé
continúa de pé, a Igreja é
santa, “é aos olhos de Deus, indefectivelmente
santa. Pois Cristo, Filho de Deus, que com o
Pai e o Espírito Santo é proclamado
o ‘único Santo’, amou a Igreja
como sua Esposa. Por ela se entregou a fim de
santificá-la. Uniu-a a si como seu corpo
e cumulou-a com o dom Espírito Santo,
para a glória de Deus.” A Igreja
é, portanto, “o Povo santo de Deus”,
e seus membros são chamados “santos”"[21].
Como explica-se, por tanto, a existência
de membros pecadores dentro da Igreja? É
preciso distinguir a Igreja enquanto Corpo de
Cristo, intimamente unida ao seu Senhor, totalmente
santa, e os membros desse Corpo, santos e pecadores.
Essa distinção, porém,
oferece uma dificuldade clara: já que
o corpo está formado pelos membros do
mesmo, como pode acontecer que esse corpo seja
santo e os membros desse corpo sejam pecadores?
Assim explica J.-H. Nicolas: “A Igreja
é santa porque ela é o Corpo de
Cristo, o meio de sua presença no mundo
e na história depois da Ascensão.
Essa santidade é total porque não
depende da santidade dos seus membros, mas da
santidade de Cristo, que Ele torna presente.
Mas, nós não podemos dizer que
Ele faça uma abstração
total da santidade dos seus membros (…)
“A
santidade objetiva da Igreja pode crescer? Parece
que de duas maneiras: quantitativamente, à
medida que a Igreja se espalha pelo mundo; qualitativamente,
segundo a esplendor e a força do seu
testemunho. Desde este ponto vista existe sem
dúvidas fases de progresso e de regresso,
de acordo com as épocas e com os lugares.
Cada vez que um membro da Igreja peca, na medida
que ele peca, ele se separa da Igreja ao mesmo
tempo que de Cristo. Existem graus nesta separação
(…). Mas se tal pessoa é membro
da Igreja, não o é em razão
de seus pecados, nem mesmo com seus pecados,
mais apesar dos seus pecados[22]. Uma observação
ao que foi transcrito é que como o batismo
imprime um selo indelével, o pecador
nunca se separa totalmente da Igreja.
A
maneira explicada acima poderia dar a impressão
de que tudo ficou resolvido. Para balancear
melhor apresentamos também a visão
de outro grande teólogo de nossos dias,
o então Cardeal Ioseph Ratzinger em seu
livro “Introdução ao Cristianismo”.
Primeiramente, o autor faz notar a irritação
que sentimos, cristãos e não-cristãos,
quando afirmamos que a Igreja é Santa.
Isto é assim porque vemos tantas miserias
humanas no seio da Igreja que alguém
já teve coragem de dizer: “Isso
já não é uma noiva, é
antes um monstro terrivelmente deformado e feroz”.
Dante Aligieri “viu sentada no carro da
Igreja a meretriz da Babilônia”[23].
Em tudo isso, vemos sempre o sonho de uma perfeição
imaculada dentro da distinção
preto ou branco.
Acontece, no entanto, que esta perfeição
sine macula, sem mancha, só se dará
na Nova Terra e nos Novos Céus. Não!
Creio na Santa Igreja Católica não
se refere em primeiro lugar à santidade
dos seus membros, mas “consiste naquele
poder de santificação que Deus
exerce nela apesar da pecaminosidade humana.
(…) O próprio Deus prendeu-se aos
homens, ele deixou prender por eles. A Nova
Aliança (…) é graça
concedida por Deus, e esta não recua
diante da infidelidade do ser humano. (…)
Como a liberalidade do Senhor nunca foi revogada,
a Igreja continua sendo sempre aquela que é
santificada por ele e na qual a santidade do
Senhor que se torna presente e que escolhe como
recipiente de sua presença, num amor
paradoxal, também e justamente as mãos
sujas dos homens. É santidade que brilha
como santidade de Cristo em meio ao pecado da
Igreja”[24].
Jesus
Cristo, em seu caminar terreno, se relaciona
com os pecadores: não os condena, os
aceita em sua companhia, come com eles; “essa
mistura indiscriminada chegou a ponto de ele
mesmo ser transformado “em pecado”
(…). Não é a Igreja simplesmente
a continuação dessa atitude de
Deus que se mistura com a miserabilidade humana?”[25].
Outro ponto interessante nesta questão
é observar que a santidade da Igreja
“não está em primerio lugar
nos órgãos que a organizam, reformam,
governam, e sim naqueles que simplesmente crêem
e que recebem nela o dom da fé que se
torna a sua vida”[26]. Ratzinger manifesta
uma primazia do dom de Deus sobre a correspondência
humana: a Igreja é Santa porque manifesta
a santidade de Jesus Cristo nos dons administrados,
que é vida de seus fiéis. Assim
como a communio sanctorum, a comunhão
dos santos, se refere em primeiro lugar às
coisas santas, a fé e aos sacramentos
da fé, assim também a santidade
da Igreja se refere em primeiro lugar à
santidade de Jesus Cristo presente na Igreja
através de seus dons, não é
à toa que a Igreja é chamada justamente
communio. Neste sentido fica claro que Ratzinger
não tem nenhum problema em dizer que
a Igreja é Santa e ao mesmo tempo falar
dessa santidade “em meio ao pecado da
Igreja”[27], de “santidade imperfeita
da Igreja”[28]. Chega até mesmo
a afirmar que o Concilio Vaticano II falou da
Igreja Santa e pecadora, mas timidamente[29].
As
duas visões teológicas sobre a
santidade da Igreja ajuda-nos a ter uma visão
bastante equilibrada sobre esta questão.
Não é possível andar por
aí dizendo que a Igreja é pecadora.
Isso é um disparate! A Igreja é
Santa, é assim que rezamos no Credo.
À hora de explicar as coisas tampouco
vale omitir as dificuldades do problema: há
pecadores no seio da Igreja que é Santa.
Eis aqui duas verdades “aparentemente”
contraditórias que precisam ser conjugadas.
Quando se entende cada vez mais esta questão,
será mais fácil também
comprender que a Igreja pode ser sempre reformada,
renovada e, de fato, o Espírito Santo
faz isso constantemente em seu Templo Santo.
c)
A Igreja é Católica
A
nossa reflexão sobre a catolicidade da
Igreja também terá como motor
o texto do Catecismo: “a palavra “católico”
significa “universal”… A Igreja
é católica em duplo sentido. Ela
é católica porque nela Cristo
está presente. “Onde está
Cristo Jesus está a Igreja Católica.”
Nela subsiste a plenitude do Corpo de Cristo
unido à sua Cabeça, o que implica
que ela recebe “a plenitude dos meios
de salvação” que ele quis:
confissão de fé correta e completa,
vida sacramental integral e ministério
ordenado na sucessão apostólica.
Neste sentido fundamental, a Igreja era católica
no dia de Pentecostes e o será sempre,
até o dia da Parusia. Ela é católica
porque é enviada em missão por
Cristo à universalidade do gênero
humano”[30].
Como
a Igreja Universal, Católica, é
enviada à universalidade humana, é
preciso concluir que Deus chama a todos os seres
humanos a pertencer ao seu novo Povo[31]. A
Igreja é instrumento universal de salvação
e, consequentemente, continua válida
aquela verdade: extra Ecclesiam nulla salus
- fora da Igreja não há salvação,
já que toda salvação vem
de Cristo, e Cristo sempre leva consigo a sua
Igreja, que é o seu Corpo. Será
que a Cabeça anda por aí separada
do Corpo? Cabeça fora do corpo ou corpo
fora do corpo significa morte. De fato, o Concílio
Vaticano II afirmou: “não podem
salvar-se aqueles que, sabendo que a Igreja
católica foi fundada por Deus por meio
de Jesus Cristo como instituição
necessária, apesar disso não quiserem
nela entrar ou nela perseverar”[32]; afirmou
também: “Aqueles, portanto, que
sem culpa ignoram o Evangelho de Cristo e sua
Igreja, mas buscam a Deus com coração
sincero e tentam, sob influxo da graça,
cumprir por obras a sua vontade conhecida por
meio do ditame da consciência podem conseguir
a salvação eterna”[33].
Essa salvação, no entanto, se
dá por Cristo e na Igreja, porém
de uma maneira misteriosa no âmbito do
que podemos chamar “caminhos extraordinários
da graça”. Com tudo isso, fica
sempre firme o dever o direito da Igreja de
levar a Boa Nova a todos os homens[34].
Uma
consequencia espiritual para o cristão
de pertencer à Igreja Católica
será a de procurar ser cada vez mais
“universal”. O católico precisa
ter o coração grande, não
pode olhar só para a sua vida, sua paróquia,
sua diocese. Precisa pensar em todos os cristãos
e enviar ajuda espiritual a todos os irmãos
no mundo inteiro. Essa dimensão tão
essencial do catolicismo poderia ser vivida,
por exemplo, pensando no Papa e suas intenções
e unindo-se a elas frequentemente. Desde Roma
a todo o mundo e desde cada Igreja Local, unida
à Igreja Capital, Roma, a todos os cristãos
no mundo inteiro. Nessa dimensão universal
não podemos esquecer-nos tampouco dos
irmãos que terminam a ua purificação
na Igreja padecente nem dos irmãos que
são-nos de grande ajuda na Igreja celestial,
à qual tendemos.
d)
A Igreja é Apostólica
O
Catecismo diz que a Igreja é apostólica
“por ser fundada sobre os apóstolos,
e isto em um tríplice sentido:
- ela foi e continua sendo construída
sobre o “fundamento dos apóstolos”
(Ef 2,20), testemunhas escolhidas e enviadas
em missão pelo próprio Cristo;
- ela conserva e transmite, com a ajuda do Espírito
que ela habita, o ensinamento, o depósito
precioso, as salutares palavras ouvidas da boca
dos apóstolos;
- ela continua a ser ensinada, santificada e
dirigida pelos apóstolos até a
volta de Cristo, raças aos que a eles
sucedem na missão pastoral: o colégio
dos bispos, “assistido pelos presbíteros,
em união com o sucessor de Pedro, pastor
supremo da Igreja”[35].
É
importante entender também que Colégio
Episcopal cuja cabeça é o Papa
é a sucessão do Colégio
Apostólico cuja cabeça é
Pedro. Um bispo entra no Colégio Episcopal
no momento da sua ordenação episcopal,
ou seja, um bispo em concreto não é
um sucessor de um apóstolo em concreto,
mas é sucessor dos apóstolos,
a sucessão é de colégio
a colégio, não individual. Apenas
o Papa sucede individualmente a um apóstolo,
Pedro.
Quando
dizemos que a Igreja é Romana queremos
expressar uma faceta do que chamamos apostolicidade
e universalidade. Efetivamente, o apóstolo
Pedro, posto à frente do grupo dos Doze
Apóstolos, foi martirizado em Roma. Por
desígnio de Deus, Roma estaría
para sempre ligada a Pedro e aos seus sucesores.
A missão de Pedro na Igreja - missão
de unidade na catolicidade- deveria continuar;
sendo assim, todos os que se sentariam na Cátedra
de Pedro seriam seus sucessores postos à
frente dos bispos e de todos os fiéis.
Fonte: www.presbiteros.com.br
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